Navegando de Filosofia - Carlos Fontes

Quais os fundamentos que poderão justificar uma crise actual dos valores? 

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Síntese da Matéria

Valores no Mundo Contemporâneo

 

Vivemos numa época que aceita como um dado adquirido que os valores estão em crise. Em todas as épocas sempre surgiram vozes manifestando idênticas impressões. A nossa, neste ponto, parece ter assumido que se terá atingido uma crise generalizada.  Neste sentido, com certa insistência são feitas duas afirmações similares: 

 

Não existem actualmente critérios seguros para distinguir o justo do injusto, o bem do mal, o belo do feio; Tudo é relativo, subjectivo.

Não existem valores. Tudo depende das circunstâncias e dos interesses em jogo.

 

Destas posições facilmente se conclui que os valores que tradicionalmente eram dados como imutáveis, ou foram postos em causa ou abandonados. O que hoje predomina, segundo muitos autores são apenas posições relativistas  ou niilistas

 

Para explicar esta crise de valores que atravessa todos os domínios da sociedade são apontadas entre outras, as seguintes razões:

 

1. A critica sistemática que muitos filósofos, como Karl Marx, Nietzsche e Freud fizeram aos valores tradicionais.

 

Karl Marx argumentou que os valores ( enquanto produtos ideológicos) não podem ser desinseridos da história e dos contextos sociais. Os valores dominantes numa dada sociedade são sempre aqueles que melhor servem a classe dominante na sua exploração das classes trabalhadoras. Defendeu por isso a necessidade da destruição de todos os tipos de moral dominante (burguesa), substituíndo-a por uma moral dos oprimidos (proletários). 

Nietzsche afirmou por seu turno que não existiam valores absolutos. Os valores são sempre produto de interesses egoístas dos indivíduos. Os valores estão ligados às condições de existência de certos grupos, justificam as suas hierarquias e mecanismos de domínio, e mudam sempre que as condições de existência se alteram. Considera, por exemplo, que a moral ocidental está assente em valores de escravos, preconizando por isso o aparecimento de um homem novo, completamente livre, e capaz de expressar a sua vitalidade sem limites, para além de valores de  arcaicos como o bem e o mal. 

Freud  mostrará que os valores morais fazem parte de um mecanismo mental repressivo formado pela interiorização de regras impostas pelos pais, e que traduzem normas e valores que fazem parte da consciência colectiva. 

 

 

2. A crise nos modelos e nas relações familiares. A família é onde, em princípio, qualquer ser humano adquire os seus primeiros valores. Ora as estruturas familiares estão em crise, o que se reflecte, por exemplo, no aumento da dissolução de casamentos, no aparecimento de novos tipos de uniões (casamento de homossexuais, etc),etc. Por tudo isto, muitos país manifestam cada vez mais dificuldade em elegerem um conjunto de valores que considerem fundamentais na educação dos seus filhos. 

3. As profundas alterações económicas, cientificas e tecnológicas que a nossa sociedade moderna tem conhecido. Estas não apenas estimularam o abandono dos valores tradicionais, mas parecem ter conduzido a humanidade para um vazio de valores. 

 

Cinco exemplos

1. A promessa que surgiu no século XIX de que a humanidade caminhava para um era de progresso moral e civilizacional generalizado, foi completamente posta de parte no século XX, com duas guerras mundiais, dezenas de milhões de mortos e um holocausto meticulosamente planeado. O que a humanidade encontrou foi um progresso limitado, no meio da barbárie.

2. A ideia da ciência como empenhada na verdade e aperfeiçoamento da humanidade, ficou igualmente comprometida no século XIX com o envolvimento de inúmeros cientistas na investigação da armas mortíferas, em cruéis experiências com seres humanos, etc. O lado negro da ciência tem vindo a evidenciar-se em todos os domínios (manipulação genética, construção de armas de destruição maciça, etc).

3. O desenvolvimento económico dos países tem sido feito à custa da poluição do ar, contaminação da águas, destruição das florestas, acumulação de lixos, etc. As previsões sobre as consequências futuras destas acções são aterradoras: o planeta terra está numa rápida agonia.

4. A sociedade da abundância está longe de ser uma realidade em todo o planeta. Dois terços da humanidade vivem abaixo do limiar da miséria.  Em alguns continentes, como a África, assistimos à destruição de populações inteiras pela fome, guerras, catástrofes naturais, ecológicas, epidemias, etc. Os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres parecem estar condenados à eterna miséria.

Um milhão de pessoas sem comida e água no Sul do Sudão. O apelo da ONU aos países doadores para que ajudem a combater esta situação conseguiu angariar apenas, até agora, um por cento do total da soma pedida para evitar uma tragédia como a fome de 1998, na mesma região, que causou a morte a centenas de pessoas.


Os rebeldes do Sul desde 1983, na sua maioria animistas e cristãos, têm lutado por uma maior autonomia do Norte, maioritariamente muçulmano e árabe. O conflito já provocou mais de dois milhões de mortos naquele que é o maior país africano.in, Público (8/3/2001)

 

5. A globalização trouxe consigo uma maior aproximação entre o povos em termos de informação, facto que aparentemente possibilitaria o desenvolvimento de uma consciência global, desperta para a questão das desigualdades dos recursos e das condições de vida entre os seres humanos.

Muitos autores contestam contudo esta interpretação, pois segundo afirmam, a informação que está a ser difundida à escala global não visa despertar a consciência crítica das pessoas mas brutalizá-las.

A circulação dos mesmos produtos à escala planetária está a provocar uma rápida uniformização de hábitos, costumes e culturas entre todos os povos. Ora os modelos culturais e comportamentais que estão a ser veiculados pelas grandes potencias mundiais, em particular os EUA, não passam de produtos culturais acríticos, onde se apela apenas ao consumismo e relativismo de valores. Tratam-se de produtos culturais destinados a serem consumidos por populações pouco educadas ou exigentes em termos intelectuais.

 

 

Este panorama profundamente negro sobre a sociedade que que vivemos está longe de ser consensual. Muitos autores afirmam que não existe qualquer "crise", o que se passa é que a sociedade se tornou menos "rígida" e "monolítica", sendo agora mais "aberta" e sensível às diferenças  individuais, o que muitas vezes, poderá assumir formas próximas do indiferentismo.   

Em todo o caso, uma coisa é certa: os valores relativistas (particulares, subjectivos) que sustentam este mundo estão a revelar-se demasiado funestos para a Humanidade no seu conjunto. É por esta razão que se aponta para a necessidade de se estabelecer novos consensos em torno de valores que nos serviam de guia para o nosso relacionamento inter-pessoal e colectivo. Em causa está o nosso futuro comum.

 

       Carlos Fontes

 

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Carlos Fontes

10º. Ano - Programa de Filosofia

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